quinta-feira, 22 de setembro de 2016

PERIFE - uma revista de moda e atitude periférica

Por Rafael Critsiano - Grajaú/ Zona Sul de SP




Parei pra pensar que nossas referências de “coisas bem feitas”, ou apenas de “coisas feitas” está nos centros, está na mídia e está nas bancas. Mas e eu? E nós? Que somos e estamos na Periferia de uma mega cidade como São Paulo, marginais por quê vivemos à margem de uma sociedade e rodeados por uma represa. Pret@s, bichas, sapatões, travestis, favelad@s, cansadas e cansados de estar em gaiolas de estereótipos, e prontas para explodi-las.
A Perife surge dessa vontade, ela nasceu de uma conversa sem pretensão, e de uma resposta afiada e pé no chão: “Nois daqui temo que fazer nóis por nóis memo, dinheiro nois nunca teve e coisa a gente sempre fez”.

Estamos localizados no Grajaú, periferia no extremo sul de SP, um lugar aonde as linguagens artísticas proliferam em um ambiente que é muito fértil, um lugar de encontros entre diversos artistas, grupos de dança, teatro, música, saraus espalhados pelos botecos, senhoras costureiras e artesãs. Porque não aqui? Porque não criar uma revista que fale com essas pessoas, que diga coisas escritas por essas pessoas, que dialogue com @s morador@s daqui. Talvez seja pretensão grande, mas acho que a intensão é essa. É esse o lugar que moramos, que queremos estar, e que queremos conhecer cada vez mais.

A Perife é definida como uma revista de moda e atitude periférica. Atitude porque estamos sempre em movimento, estamos sempre criando gírias, danças, música, e isso tudo no cotidiano, enquanto ocupamos vagões de trens superlotados, pra nos locomover atrás de estudo e trabalho. Uma dessas criações periféricas é a moda. E eu entendo por moda criada aqui tudo.



Desde quem usa loja de departamento, quem compra e monta look nas lojas do bairro em que qualquer peça é 10 conto, quem garimpe os poucos brechós existentes aqui, quem compra as camisetas estampadas da internet, quem pega das irmãs e irmãos mais velhos e de amig@s que não servem mais, e quem crie as suas próprias roupas (um dos modelos da primeira edição da Perife é costureiro, filho de costureira, e ambos criam roupas pra el@s e pras pessoas do bairro).

Eu entendo por moda criada aqui, qualquer uma delas. Entendo quem cria a partir da condição, quem cria look com referência na novela das 8, e quem inventa, mistura cor, coloca blusa por cima de blusa, bota umas toca no meio e diz: “Eu mesma que inventei.amiga”. A moda do funk que é BEM presente aqui, com as imitações de marcas (ou alguns com as verdadeiras, rs). E com as “meninas que não sentem frio”. A galera do rock, que só sai de casa se for pra sair de preto. Somos muit@s e de muitas vertentes, a Perife quer nos colocar no centro dessas discussões. Mostrar o que criamos e como criamos.

Não esperamos mais estar nos lugares que não foram pensados pra nós. Cansamos. E estamos criando os nossos lugares, pensados e planeados de uma forma que nos caiba. Estamos subvertendo nossas condições, e criando a partir delas, essa é a nossa referência.