segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Por que o programa da Fernanda Lima, não discute feminismo? Ou pelo que devemos parar dia 08 de Março

No século passado, as mulheres foram as ruas e queimaram sutiãs, como forma de romper com o estereótipo de gênero criado pelos homens.
Desde então, o senso comum entende que, feminismo é uma luta de mulheres versus homens.
A culpa disso são das mulheres? Claro que não, a culpa é da sociedade patriarcal, que transforma em guerra, tudo que toca, inclusive a luta por direitos humanos.



Quando falamos em feminismo, é importante entender, que esse é um movimento criado no inicio do século passado, e é marcado por conceitos, categorias e ações que visam refletir sobre a opressão e exploração baseada na relação entre os gêneros, criando assim estratégias de superação dessa realidade.
Portanto, quando falamos que vivemos numa sociedade patriarcal, estamos dizendo, que a vida nessa sociedade é regida pelo poder exercido pelo patris, que deve ser entendido não só como a figura do pai, como também do patrão.
Alias, falar de feminismo é discutir o modo de produção capitalista, por que implica discutir a base da opressão da mulher, que é a manutenção da propriedade privada.
Você, que está lendo o texto, deve estar se perguntado, o que tudo isso: modo de produção, patrão, propriedade privada, têm haver com feminismo, afinal, feminismo não é a luta por direito das mulheres?
A resposta é: sim e não.
Sim, feminismo é a luta pelo direito das mulheres: direito de não apanhar, direito de não ser violentada, direito de ter acesso a saúde e educação, direito a viver em paz, harmonia e dignidade. E não, feminismo não é só a luta pelo direito, feminismo é sobretudo uma luta pelo fim da opressão de gênero, por que quem determina que tudo isso que já foi dito, não seja um direito, é a patris que controla toda a sociedade, e se apropria do discurso de minoria politica, para impor padrões e modelos, que servem para controlar, oprimir e, em última instância explorar.
É papel do feminismo e das feministas, rever papéis, modelos, conceitos, categorias, rever toda a realidade. Questionar o papel do homem e a forma como eles são educados. Compreender e criticar a falta de mulheres em cargos de poder em nosso país, questionar o padrão de beleza, sim, devemos e fazemos isso bem, mas acreditem: isso não é feminismo e nem ser feminista.
Por isso, os debates que a atriz global, Fernanda Lima, vem fazendo em seu programa sexista, denominado Amor & Sexo, não são debates feministas, e digo isso por duas razões: primeiro, que o fato de simplesmente questionar o status quo, sem nenhum intenção de promover mudanças, não qualifica o debate como um movimento de luta e resistência (e é isso que o feminismo é, luta e resistência), segundo que fazer a critica, sem ir na raiz do problema, reforça os estereótipos e estimula a rivalidade (feminismo não é sobre mulheres disputando com homens). Vou dar um exemplo: no último programa que tive a oportunidade de assistir, discutia-se o que é ser macho, e as criticas promovidas em conjunto no programa, centravam-se na forma como os homens são educados. A sociedade os educou para serem machos e não homens.
Mas, peraí, vamos pensar só um pouquinho: na nossa sociedade, quem é o responsável em educar as crianças: as mães ou quem desenvolve a maternagem (a Regina Navarro, afirmava, que as experiencias familiares, eram centrais para moldar o que é ser menino e menina), e se cabe as mães ensinarem para seus filhos, o que é ser homem, e se eles são machistas, de quem é a culpa mesmo pelo machismo? Das mulheres que são mães, oras bolas.
Regina Navarro, psicanalista e escritora de livros sobre relacionamento

Então, digam para mim: aonde está a discussão feminista nisso tudo? Se em última instância, a análise ou a mensagem implícita passada no programa, joga no colo da mulher, a culpa pelo machismo que a assombra?
Fora, que o programa, reforça todos os estereótipos de gênero feminino, no sentido mais negativo da estereotipia: hiper sexualização do corpo da mulher, responsabilização da mulher pelo sucesso sexual da relação, fragilidade emocional em relação aos homens. E, nem vamos falar, sobre o fato da Fernanda Lima ser branca, magríssima e aparentar ser mais nova do que sua idade real (parte do controle sobre a mulher, utilizado pela patris, é a imposição da eterna juventude).

Fernanda Lima, 39 anos

Angela Davis, dentre outras ativistas, está chamando uma greve feminina (e por que não feminista) para o dia 08 de Março, uma parada internacional.
Por que nós no Brasil, devemos se juntar a essa luta?
Essa é uma pergunta importantíssima que devemos fazer a nós mesmas. Lutamos pelos direitos das mulheres, por que e para quem?
Para que serve o feminismo? Por que o modo de produção capitalista, se apropria de nossa mão de obra (nas mais diversas expressões, inclusive no trabalho doméstico) e se utiliza da noção de supremacia masculina, através da imposição de padrões, muitas vezes fomentados pela mídia, para nos explorar economicamente cada vez mais?
E essa exploração passa por ocuparmos os piores postos de trabalho até a busca desenfreada por ser a mulher que eles criaram, mesmo que ela seja uma mulher "feminista".
Herbert Marcuse, falava no século passado, que a cultura criada e propagada pelas classes dominantes, levaria os oprimidos e explorados, a reproduzirem fielmente tudo aquilo que fosse determinado, inclusive a critica social. 
Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que se a Globo (por exemplo) aponta que feminismo é a mulher poder gozar com qualidade, a gente deve parar e pensar se isso faz sentido.
Por que afinal, o que é gozar com qualidade? Por que o gozo precisa ter qualidade? Por que precisa haver uma cisão entre Amor e Sexo?
A própria Angela Davis, nos diz que, devemos ser radical e irmos a raiz do problema.

Herbert Marcuse e Angela Davis

No Brasil hoje, qual a raiz do problema da mulher?
No dia 08 de Março, ao nos juntarmos a Internacional Feminina (e feminista), tenhamos claro a raiz da nossa luta antimachista, mais também antiracista e anticapitalista.
Por que lutar pelo direito das mulheres, é lutar contra um modo de produção que nos explora, oprime, aliena e assassina todos os dias.
Se você quiser aprofundar o debate, faça conosco o curso de introdução ao feminismo, dia 18 de Fevereiro, as 14hs em São Paulo.
Inscrições AQUI.

NZambia Ua Kuatesa
Que as nossas ancestrais, nos deem NGunzo de sabedoria, resistência, conhecimento e libertação.
Ialandalu (Jaque Conceição)