quinta-feira, 16 de março de 2017

Por que precisamos falar sobre solidão?


Há diversas formas, de começar a escrever esse texto. Mais, começo dizendo que o Coletivo Di Jejê é um negócio conceitual que atua no campo educacional, pautando a produção, pesquisa e extensão do conhecimento sobre mulheres negras no Brasil.
Conto também, que há diversos negócios conceituais geridos por negros e negras em nosso país, tensionando a economia com a burguesia: negócios culturais, negócios do campo da moda, da comunicação, do entretenimento, do esporte. Eu, através do Di Jejê, tensiono o campo da produção de conhecimento com a burguesia e a branquitude.
Se alguém aqui, vai falar sobre a mulher negra, vai ser nós mesmas, tá ouvindo bem, seu branco safado?
Essa frase, a três anos atrás, depois de passar um ano desempregada (eu já era mestre e doutoranda) e quase ver meus filhos passarem fome, foi o ponto de partida disso que está se fazendo Coletivo Di Jejê.
Se estou rica monetarizando a nossa dor? Não, e nem sei se vou ficar, acredito que não. Trabalho muito, dentro e fora do Coletivo, para pagar o aluguel e uma taça de vinho uma vez por mês no Aparelha Luzia. Se sou desonesta por monetarizar nossa dor? Também não, por que acredito enquanto pedagoga e pesquisadora, que temos que ter serenidade, seriedade e cautela para falarmos de nossos problemas enquanto negras, mais precisamos falar, inclusive para supera-los.
Se encararmos os problemas das mulheres negras, unicamente como algo subjetivo, nunca conseguiremos encontrar saída para os mesmos, porque subjetivamente, não existirá saída coletiva, ela sempre será individual.
Se por um lado, a noção de subjetividade potencializa as discussões, por que abre um leque de possibilidades, por outro, ela diminui a luta, por que joga nossos problemas históricos no campo da individualidade. E no campo da individualidade, não existe saída coletiva, conjunta, articulada, politica, apenas o que cabe a cada um na sua particularidade.
Eu só acredito em processos de mudança significativa, quando são coletivos. Sem coletivo, impossível articular uma mudança real.
Pensando nessa perspectiva, os cursos do Di Jejê, vem acontecendo desde Fevereiro de 2014. É, não comecei nesse sábado dia 18.
E, são cursos sim. Não atuam na mesma esfera elitizada de formação empreendida pela burguesia em seus espaços teóricos embranquecidos, mais visam a produção de conhecimento e a analise sistêmica da realidade, a partir de um conceito: os terreiros de candomblé,
Na roça, quando uma irmã mais velha vai ensinar uma irmã mais nova, ela se abaixa, se ajoelha e vai contando, dizendo, falando, explicando o que deve ser feito, e juntas as duas irmãs, produzem um novo saber, a partir da experiência previa de ambas, orientadas pelo conhecimento acumulado por séculos.
Nessa concepção de aprendizagem (só aprendizagem, por que no Di Jejê não se ensina), estou a três anos, construindo coletivamente o Coletivo Di Jejê.
O curso de sábado, sobre A solidão da mulher negra, não é uma roda de conversa sobre as experiência afetivas das mulheres negras, mediada por uma menina de 24 anos, que namora desde os 20, de pele clara e formada em arquitetura.
O CURSO de sábado, sobre a A solidão da mulher negra, é um encontro de discussão sobre as bases sociais, históricas e políticas que moldam nossa forma de se relacionar afetivamente, e será mediado pela Stephanie Ribeiro (é sempre bom lembrar, que no terreiro, idade cronológica não traduz seu lugar naquele espaço). A Stephanie vem a meu convite, por que nos últimos 3 anos ela vem publicando e produzindo materiais de forma sistematizada sobre o tema (lembra, lá no começo, a necessidade de de sistematizar para compreender e enfrentar?).
Há muitas pretas que também pautam a Solidão da Mulher Negra, e torço para todas compareçam no sábado, dia 18/03 as 10hs no Aparelha Luzia, para contribuir de maneira honesta para a discussão. 
O que nós não podemos nunca (e isso eu não aceito) é desumanizar as pessoas ofendo sua trajetória e moral. Temos o direito de criticar nossos iguais, de se fazer ouvir, de revindicar, de pedir, exigir, de sermos ouvidas. Temos o direito de dizer: olha, esse curso, não sei, acho que não é esse o caminho.
Mais não podemos NUNCA, desumanizar a próxima, ofendendo sua conduta pessoal, sem ao menos conhecer sua trajetória e sua história. Por que isso, a branquitude faz conosco todos os dias e de graça. Por mero prazer.
O curso acontecerá, sábado, no Aparelha Luzia, gratuitamente (por que as 18 pessoas pagantes cobriram os custo de execução da atividade).
Ele será gratuito, não por que estou revendo uma desonestidade em monetarizar a nossa dor. Por que sou pobre, mais não sou pilantra.
Ele será gratuito, por que esse é um tema que precisa e deve ser discutido pelo maior número possível de mulheres e homens negros.
Crianças são muito bem vindas.
Bom senso, serenidade, seriedade e nossos conhecimentos, também.
O Coletivo Di Jejê segue seu caminhar, fazendo o bonde da história: criando um espaço de debate e discussão horizontal para mulheres negras estarem entre mulheres negras, falando sobre mulheres negras. Sem o apoio ou amparo da branquitude, somente nós por nós mesmas.
Quero ver todo mundo no baile, e pelo jeito, vocês vem.



Ialandalu ou Jaque Conceição
Criadora, fundadora, coordenadora, assistente de administração, recepcionista, financeiro, recursos humanos, jurídico, departamento de comunicação e marketing, social media, estagiária, auxiliar de limpeza e de cozinha no Coletivo Di Jejê

Nóis <3