Pular para o conteúdo principal

Por que toda feminista, branca ou negra, deve ler Mulher, raça e classe?






Originalmente publicado em https://goo.gl/F9fvnM


Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.
Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?
Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.
Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.
Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.
O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.
Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.
91Ro14Yv5gL
Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.
Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.
Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.
Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.
Que nada nos defina, a não ser a liberdade.
Awetu!
Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.
http://coletivodijeje.iluria.com/pd-553649-curso-o-que-e-o-feminismo-negro-djamila-ribeiro-e-sueli-carneiro.html?ct=1f7dc3&p=1&s=1


Postagens mais visitadas deste blog

PRECISAMOS FALAR SOBRE COLORISMO

Afinal, o que é COLORISMO ? Qual  a origem desse termo? Há muitas discussões sobre essa temática no Brasil. Expressões como afrobege , afroconveniente , pardo , mestiço , são associadas a temática do colorismo. Existem diversas explicações: a eugênia imposta no Brasil no final do século XIX e começo do século XX, a mestiçagem forçada entre negros e europeus através do estupro de mulheres negras escravizadas .  O processo da mestiçagem racial , também está ligada ao apagamento cultural e histórico da herança africana , presente no processo de construção da identidade brasileira . Pensando sobre a necessidade da realização desse debate, que o Coletivo Di Jeje , te convida para a web aula Colorismo, com Jaque Conceição . A aula vai acontecer on line via streaming , no dia 10 de Julho as 19hs , GRATUITAMENTE . Para participar, acesse o link e se inscreva. As inscrições vão até dia 08 de Julho , e as vagas são LIMITADAS . Haverá emissão de certificados . A

Mulheres Negras: pelo corpo, entre o corpo, no corpo

Jaqueline Conceição da Silv a Fundadora e Coordenadora do Coletivo Di Jeje Doutoranda em Antropologia Social/UFSC Penso sempre, que nenhuma ideia chega sozinha: as idéias são frutos das experiências que compartilhamos ao longo de nossas jornadas. E assim, o percurso da jornada como doutoranda da antropologia, tem me feito deslocar a compreensão do feminismo negro apenas como disputa política na pólis, para a formulação de uma existência do corpo negro produzindo a pólis. Não se trata de pensar disputa, mas sim produção da vida e da história. Corpo, tem parecido ser, um ponto central para as mulheres negras, produzirem teoricamente  sobre sua existência. Ele aparece com frequência em textos teóricos, ensaios e pesquisas. Nas mais diferentes formas e contextos. E é o corpo, meu corpo negro, o corpo negro que vamos pensar nesse texto. Corpo, não como unidade física da existência de uma subjetividade subalternizada e domesticada, mas como o espaço de const

KUKALA - plataforma de cursos e conteúdos para professores, pesquisadores e interessados sobre a história e a cultura africana e afro brasileira

KUKALA é uma palavra Bantu que se refere a infância e a formação das crianças através do ensinamento dos mais velhos, mas tendo a leveza e a felicidade infantil como mediadora do aprender e do ensinar. Na cultura ocidental, seria algo como os pilares da Educação da UNESCO: aprender a aprender, aprender a conhecer, aprender a fazer e aprender a ser. Para assinar clique AQUI . Como é: uma plataforma de cursos on line com 8 cursos com certificação de 90 horas cada, válidos para progressão funcional de professores da educação básica, elaborados pelo grupo de pesquisadoras do Coletivo Di Jeje. Os cursos são elaborados a partir da curadoria de conteúdo dentro dos 8 temas que são abordados. Quanto é: o usuário faz um pagamento único no valor de 75 reais e pode acessar o conteúdo durante 06 meses, além dos cursos há materiais de apoio como sugestões de aulas e atividades para serem desenvolvidas da educação infantil até o ensino médio, e também web aulas com especialistas convida