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SÓ MINA CRUEL: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E CULTURA AFIRMATIVA NO UNIVERSO JUVENIL DO FUNK.




SÓ MINA CRUEL: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E CULTURA AFIRMATIVA NO UNIVERSO JUVENIL DO FUNK.
 Jaqueline Conceição  Silva
Fundadora e Coordenadora do Coletivo Di Jeje
*trabalho originalmente públicado na UNESP - Franca/SP (2013) e na Columbya University - NYC/EUA em inglês (2014)





Resumo
O presente trabalho é parte integrante da dissertação de mestrado da autora. Têm por objetivo refletir sobre as relações de gênero entre jovens pobres moradores da periferia da Cidade de São Paulo, e parte do discurso narrado nas letras de FUNK escritas e ouvidas por esses jovens. Parte das reflexões de Herbert Marcuse e Theodor W. Adorno (Teoria Crítica da Sociedade) sobre o caráter afirmativo da cultura e formação, buscando considerar as relações de poder e dominação presente na sociedade moderna de base tecnológica, e quais são as formas que a opressão e a exploração sobre a mulher a partir da cisão entre razão e sensibilidade e o controle da natureza, se materializam no discurso presente no FUNK e nos espaços de relação entre os gêneros na nossa sociedade. A metodologia empregada foi a analise de 21 letras de FUNK veiculadas nos meios de comunicação (rádio e televisão) através de programas voltadas para o público juvenil da classe popular e a análise desse material a luz das contribuições da Escola de Frankfurt sobre formação, cultura e racionalidade tecnológica. As considerações apontam no sentido de que tais jovens (produtores e consumidores do FUNK enquanto produto cultural da sociedade de massas) reproduzem em seu discurso as mesmas relações de opressão e submissão em que a mulher é submetida ao longo do processo civilizatório, mesmo que revestido de uma pseudoliberdade aparente na exacerbação da sexualidade feminina e do “direito” das jovens em usufruir do prazer que seu corpo pode lhes proporcionar. Fica evidente, que há então, uma perversão deste discurso em prol da figura masculina no universo do FUNK, o que não difere dos demais espaços sociais, onde apesar do avanço crescente da mulher no mercado de trabalho, seu corpo (seja através da maternidade, da sexualidade ou da estética) ainda está sujeita aos desejos do patrão, do marido, do namorado, do cafetão e do conjunto de toda a sociedade burguesa imersa na ideologia do patriarcado.

Introdução
O presente trabalho foi extraído do tema da minha dissertação de mestrado vinculada ao Programa de Estudos Pós Graduados em Educação: Historia, Politica, Sociedade da PUC de São Paulo, na linha de Pesquisa Teoria Critica e Educação.
O tema central de meu estudo é a formação de jovens em situação de vulnerabilidade social: indivíduos com idade entre 15 e 24 anos, moradores da periferia da Cidade de São Paulo e a ação socioeducativa desenvolvida por Organizações Não governamentais com esses indivíduos, com o objetivo de promover sua formação.
Nesta perspectiva, o que me motivou a participar da XI Semana da Mulher – UNESP Marilia, é o fato de que há poucos estudos sobre gênero e juventude, considerando esta fase da vida como uma etapa primordial de formação para a vida adulta. E, dentre os dados estudados por mim, para a construção do meu campo empírico, pude perceber algumas pistas importantes sobre temáticas relacionadas a tríade formação, gênero e juventude.
Para facilitar a compreensão do leitor/a em relação ao texto que aqui se apresenta, dividi este trabalho em três partes: apontamentos teóricos sobre a Teoria Critica da Sociedade e os conceitos que serão utilizados – formação, cultura afirmativa e racionalidade tecnológica, a descrição do procedimento de coleta de dados e analise do material utilizado e por fim, algumas reflexões sobre as relações de gênero no interior das experiências juvenis da classe popular a luz das contribuições de Herbert Marcuse e Theodor W. Adorno, tendo como objeto central a racionalidade tecnológica e a cultura afirmativa como indicativo da formação dos indivíduos.


Formação, cultura afirmativa e racionalidade tecnológica: a contribuição teórica da Escola de Frankfurt

Horkeimer e Adorno em seu livro a Dialética do Esclarecimento (1947), buscam identificar as causas que levaram a humanidade a reincidir na vontade de perseguir o caminho da barbárie, após o fracasso do projeto de autonomia da razão humana, tal qual o pensamento ocidental iluminista identificou. Segundo os autores, a razão terá falhado por não ter conseguido prever os conflitos, resolvendo-os de acordo com as práticas racionais. Esse fracasso social, econômico, político e cultural se apresentavam de forma tão evidente, que esses autores se sentiram impelidos a investigar esse processo através do percurso histórico da civilização.
No mesmo caminho, Herbert Marcuse (1964, 1968,1999, 2006), se propõe a discutir os aspectos gerais da sociedade moderna de base tecnológica e o impacto da tecnologia e da sociedade administrada no processo de constituição do individuo.
Para a apreensão da totalidade, a análise da realidade social deve ser feita privilegiando a crítica de sua ideologia, enquanto resultado das relações de produção e reprodução econômica, social e cultural. Em outras palavras, a sociedade moderna de base tecnológica, produz o indivíduo unidimensional, resultante da ideologia da sociedade industrial, incapaz de produzir a crítica, cujas relações são marcadas pela racionalidade tecnológica (Marcuse,1964).
O individuo unidimensional é resultado do processo de integração total do indivíduo à massa, ou seja, em seu processo de formação não se diferencia dos outros, fazendo com que seu ego se constitua já enfraquecido. Ao passo que a ideologia da racionalidade tecnológica ou a interiorização do modo de produção capitalista e tecnológico, produziu o esvaziamento das experiências formativas. Esse esvaziamento leva os indivíduos à regressão: estando em um determinado estágio de progresso material, os indivíduos encontram-se aquém daquilo que poderia proporcionar uma vida mais digna em termos subjetivos. Resta a satisfação dos impulsos relacionados à destruição (Marcuse,1968). A definição dada pelos autores frankfurtianos para a barbárie está baseada nas considerações de Freud sobre o que denomina mal estar na cultura.
Assim, a racionalidade tecnológica integra o que antes era antagônico como, por exemplo, os jovens que independentemente de sua classe social frequentam os mesmos espaços de lazer, mas nem por isso vivem a mesma realidade objetiva; e essa possibilidade de integração, causada pelo desenvolvimento tecnológico (não há mais a segregação total entre a classe trabalhadora e a classe dominante), gera a aniquilação da consciência individual e, portanto, o enfraquecimento do ego e a diluição do individuo na multidão.
Se não ocorre a individuação, ou seja, se a formação não produz a autonomia e a autodeterminação, promovendo o esclarecimento geral, os indivíduos perdem a capacidade da crítica sobre a realidade objetiva. Por não fazer a crítica à sociedade, ele não percebe a barbárie em que está inserido e, por não percebê-la – ou percebê-la, mas não estiver dotado de condições para o enfrentamento – não pode superá-la.
Adorno (1995) assinala que a emancipação é o processo que faz o individuo sair da condição de menoridade (incapaz de ser responsável por si mesmo em todos os aspectos) para maioridade, emancipado (responsável por seus atos e pela sua capacidade de análise e de crítica). Sendo a emancipação a etapa final da formação.
Em linhas gerais, formação é a interiorização subjetiva da cultura, e desta maneira, se a cultura produzida pela sociedade tecnológica, manifesta fortemente um caráter afirmativo, os caminhos para formação do individuo tomam-se insuficientes para uma formação completa, ou seja, a cultura acaba levando o sujeito a pseudoformação (uma falsa formação ou falsa emancipação).
Segundo Marcuse :
Cultura afirmativa é aquela cultura pertencente à época burguesa que no curso de seu próprio desenvolvimento levaria a distinguir e elevar o mundo espiritual anímico, nos termos de uma esfera de valores autônoma, em relação à civilização. Seu traço decisivo é a afirmação de um mundo mais valioso, universalmente obrigatório, incondicionalmente confirmado, eternamente melhor, que é essencialmente diferente do mundo de fato da luta diária pela existência, mas que qualquer indivíduo pode realizar para si “a partir do interior”, sem transformar aquela realidade de fato. (Marucse, 2006, p:95-96)

Em outras palavras, a sociedade burguesa criou uma cisão entre cultura e civilização, tendo por cultura as atividades intelectuais e artísticas dos homens e por civilização todo o progresso material dos homens. E essa cisão racional entre cultura e civilização, razão e sensibilidade, homem e natureza são a base para a construção do caráter afirmativo da cultura. A cultura deixa de ser o resultado da criação dos homens, para ser um véu ideológico da burguesia.
A cultura passa a ser uma espécie de afirmadora dos ideais burgueses sobre a vida como um todo, por exemplo, os romances retratam a ideia do amor impossível uma vez que a individualidade é uma das características fundamentais da modernidade, e o amor, como algo sagrado, só pode ser vivenciado num processo de doação e sacrilégio do eu para o outro, sendo assim, amar se torna algo trágico, sofrido e repleto de renúncia, principalmente da renúncia do que é mais sagrado ao burguês: a sua individualidade.
Não vou me aprofundar agora no aspecto afirmativo da cultura, e a forma como os aspectos desse caráter implicam nos processos de opressão da mulher na sociedade moderna, mas          quero apontar que um dos resultados da cultura afirmativa é tornar a própria cultura um produto pronto para ser produzido e consumido dentro dos ditames da racionalidade tecnológica da industrialização, e neste ponto, pode implicar que o FUNK passa então a ser mais um produto massificado da sociedade de massas.
Dessa maneira, obviamente o FUNK retratará em sua manifestação todos os elementos ideológicos presentes em nossa sociedade: violência, homofobia, machismo, e os ideais burgueses de igualdade (todos querem dirigir carros caros e morar em mansões), liberdade (somos livres para dizermos o que quisermos e fazer o que quisermos) e fraternidade (unidade entre os pobres e ricos, a partir do consumo de bens).

O FUNK e a juventude da classe popular: o papel claro da mulher na relação de poder e subjugação.

Quem mora na periferia do Brasil, e em particular a periferia de São Paulo ouve todos os dias no auto falante dos carros o batidão agressivo do FUNK.
Eu como feminista, sempre me senti inquieta com o conteúdo explicito das músicas que entre um verso e outro expõe os limites do prazer, da droga, do crime da vida na periferia entre os sonhos de consumo dos jovens que produzem e consomem este produto cultural. E a maneira como a sexualidade feminina e seu papel social dentro das relações da periferia e da sociedade como um todo são tratadas pelos mestres de cerimonia do FUNK, sejam eles homens ou mulheres.
O FUNK é um gênero musical criado na década de 1990 (Século XX) na periferia do Estado do Rio de Janeiro, sendo atualmente produzido e consumido de maneira diversificada por jovens pobre e jovens de classe media alta e da elite de todo Brasil, com ênfase em São Paulo e Rio de Janeiro.
Quero enfatizar, que não pretendo aqui, fazer uma analise moralista sobre o conteúdo das músicas de FUNK, ou culpabilizar os jovens envolvidos neste cenário musical, que cabe ressaltar, movimenta milhões de reais nas festas das casas noturnas frequentadas pela juventude da elite paulista ou em shows e produtos, em grande parte vinculados pela internet nas redes sociais e no YouTube (site de vídeos, muito popular entre os jovens – www.youtube.com), o objetivo de minha análise é discutir como a ideologia patriarcal da burguesia reverbera no imaginário da juventude da classe popular de tal forma, que se materializa na cultura de massa produzida e consumida por esses mesmos jovens.
Para este trabalho, acessei o site de busca Google (www.google.com.br), e localizei na sua base de acesso sites que descrevessem as músicas de FUNK mais executadas nas rádios populares da Cidade de São Paulo (Nativa FM, Jovem PAN, Transcontinetal FM, Band FM) e programas de televisão (Caldeirão do HULK, O melhor do Brasil, Esquenta, Programa Eliana, Pânico na TV), sendo que estes programas televisos e radiofônicos são consumidos em grande parte por jovens entre 15 e 24 anos.
A partir dessa busca inicial chegou-se aos vinte e um títulos abaixo:
ü  Mc Kauan: Ela não usa tamanquinho
ü  Mc Beyonce: Madame da balada
ü  Mc Daleste: Deusa da ostentação
ü  Valeska Popozuda: Sou gay e a A buceta é minha
ü  Mc Smith: Ela é a piranha da casa
ü  Mc Pocahontas: Agora eu tô assim e Mulher de poder
ü  Mc Kmila: Quem não dá assistência, abre concorrência
ü  Mc Lon: Novinha vem que tem
ü  Menor do Chapa: Top de Luxo
ü  Mr. Catra: Mama eu, Uh papai chegou, Faz merecer que eu faço valer a pena e Ela dá pra nóis que nóis é patrão
ü  Mc Frank: Dinheiro não é problema
ü  Mc Nego Blue: É o fluxo
ü  Mc Guime: Plaque de 100
ü  Mc Taz: Deixa Rolar
ü  Mc Rodolfinho: Novinha
ü  Mc Dede: Bate o bumbum na água

Para a compreensão do material, as músicas foram separadas em três grupos.
 O 1º Grupo versa sobre as músicas escritas e cantadas por jovens do sexo masculino, que falam especificamente da mulher e do seu papel social de satisfazer os desejos sexuais dos parceiros e da submissão que devem a esses parceiros seja por meio da coerção física ou financeira. Fazem parte desse grupo:     Mc Kauan: Ela não usa tamanquinho; Mc Daleste: Deusa da ostentação; Mc Smith: Ela é a piranha da casa; Mc Lon: Novinha vem que tem; Menor do Chapa: Top de Luxo; Mr. Catra: Mama eu, Uh papai chegou, Faz merecer que eu faço valer a pena e Ela dá pra nóis que nóis é patrão, Mc Rodolfinho: Novinha; Mc Dede: Bate o bumbum na água.
O 2º Grupo são músicas que retratam a mulher de maneira subjetiva, as jovens do sexo feminino aparecem nos videoclipes como coadjuvantes do ambiente másculo retratado nas musicas, onde dinheiro e sexo se revertem em poder, e sendo assim, quanto mais mulheres jovens e seminuas, mais poder e mais dinheiro. Fazem parte desse grupo: Mc Frank: Dinheiro não é problema; Mc Nego Blue: É o fluxo; Mc Guime: Plaque de 100;             Mc Taz: Deixa Rolar; Mc Rodolfinho: Novinha.
O 3º Grupo se refere a músicas cantadas por jovens do sexo feminino e exaltam a independência da mulher através da capacidade de ganhar seu próprio dinheiro e satisfazer suas pulsões sexuais seja com homens ou outras mulheres, de maneira geral, tais músicas, ressaltam as habilidades sexuais das mestras de cerimonia, e como tais habilidades lhe permite seu auto sustento, e também a sua condição de não submissa a seu possível parceiro ou qualquer outro homem. Fazem parte desse grupo: Mc Beyonce: Madame da balada; Valeska Popozuda: Sou gay e a A buceta é minha; Mc Kmila: Quem não dá assistência, abre concorrência.
Além de ouvir as músicas, foram assistidos também os videoclipes produzidos. Algumas características apreendidas precisam ser ressaltadas: a presença de jovens entre 17 e 25 anos em todos os vídeos clipes, a presença de muita bebida e notas de reais, automóveis caros e jóias de vários tipos, mansões com piscina ou a beira mar e muitas mulheres jovens trajando roupas minúsculas que reproduzem o mesmo padrão estético presente na cultura burguesa (cabelos longos e lisos, corpos esculturais construídos com bisturi ou a custa de horas na academia, brancas e de preferência com olhos claros).
Essas características dos videoclipes das musicas de FUNK, ressalta o primeiro pressuposto trazido pela pesquisadora, ao escolher discutir este gênero musical da sociedade de massa: os padrões estéticos, éticos, morais, econômicos da burguesia são também reproduzidos pela juventude da classe popular; uma rápida olhada na novela das 8 hs da maior emissora do país (Rede Globo), demonstra que ambos cenários são bem próximos e em muito casos iguais, já que algumas das músicas aqui citadas, já foram temas de novelas desta emissora. E, todos nós sabemos dos meios que a burguesia utiliza para a inculcação de valores através dos programas televisivos e do alcance das músicas veiculadas nos programas de televisão.

Algumas reflexões sobre as relações de gênero no interior das experiências juvenis da classe popular

Uma das questões centrais de minhas reflexões feministas sobre a opressão da mulher a partir das contribuições da Teoria Critica da Sociedade, tem haver com o entendimento pontual de que momento ao longo da historia da civilização se deu a dominação e opressão do homem sobre a mulher.
Hoje, na sociedade brasileira, os elementos repressivos e opressores sobre a mulher muitas vezes são tão sublimes e escamoteados pelo fato de termos um presidente do sexo feminino, que se torna muitas vezes impossível realizar qualquer discussão com outras mulheres e a maioria dos homens dentro e fora da universidade sobre o machismo e a raiz patriarcal da sociedade burguesa.
Em alguns textos, os frankfurtianos, nos fornecem pistas sobre a origem dessa opressão. A meu ver, essas pistas se tornam assertivas nos textos de Herbert Marcuse sobre a cultura. E, discutir a opressão patriarcal sobre a mulher a partir dos marcos da cultura, me permite inferir de maneira objetiva na dinâmica das relações de gênero na sociedade, em particular nas que dizem respeito aos jovens. Muitas vezes as relações de gênero entre os jovens são mediadas pela cultura de massa, cultura essa completamente marcada pela cultura afirmativa.
Quero destacar então dois aspectos centrais. Um aspecto tem a ver diretamente com as reflexões de Marcuse sobre a cisão entre razão e sensibilidade e sobre a necessidade de controle do homem sobre a natureza. A outra questão conflui a partir da primeira, no discurso das letras de FUNK elaboradas a partir das bases objetivas da sociedade moderna, onde a massificação dos indivíduos os torna cada vez mais coisas que reproduzem o discurso burguês historicamente construído pautado na lógica da cisão homem – natureza/ cultura – civilização/ razão – sensibilidade.
Quando, no inicio da civilização, o homem optou pela violência como forma de progresso, ele criou uma separação entre razão e sensibilidade, sendo a razão o próprio homem e a sensibilidade a natureza. Para construir grandes cidades e manter seus habitantes vivos, garantir alimento, proteção contra os elementos naturais, foi preciso que o homem criasse formas de dominar a natureza e tudo que se assemelhasse a ela. Assim, o progresso foi possível graças a dominação, muitas vezes violente do homem sob a natureza.
Todos os elementos próximos da natureza, ou que remetessem a ela, também deveria ser dominados, e dessa maneira, a mulher, por dentre tantas capacidades, a de gerar outra vida dentro de si, possuindo dessa maneira, uma força natural para a procriação, foi separada do homem e colocado ao lado da natureza, passando a representar a sensibilidade no quadro das relações sociais.
Adorno, na Dialética do Esclarecimento nos diz:

A explicação do ódio contra a mulher, enquanto criatura mais fraca da dominação é a mesma do ódio aos judeus. Nas mulheres e nos judeus é fácil ver que há milênios não exercem qualquer dominação. Eles vivem, embora fosse possível  elimina-los, e seu medo e fraqueza, sua maior afinidade com a natureza em razão da pressão incessante a que estão submetidos, é seu elemento vital. Isso irrita e leva a uma fúria cega o homem forte, que paga sua força com um intenso distanciamento da natureza e deve eternamente se proibir o medo. (Adorno, 1985, p. 93).

A necessidade do homem de dominação e subjugação vem sendo reforçada ao longo dos séculos, e sustentada pela cultura afirmativa. Mesmo, que em linhas gerais, a sociedade busque formas de atenuar essa subjugação seja através da sacralidade da maternidade, ou da pseudo valorização da mulher a partir da maternidade e de seus “atributos” como a capacidade de amar e de perdoar entre outros, ainda perdura no imaginário social a mulher como a criatura vil que comeu do fruto proibido e condenou toda a humanidade.
E essa vilania da mulher e reproduzida pela cultura ao longo dos séculos da civilização de Sansão a Chico Buarque, passando pelo FUNK a mulher é ora objeto de edificação (como a Nossa senhora), ora objeto de depravação aniquilamento como na Geni e o Zé Pelim de Chico Buarque.
Em relação ao FUNK e ao universo juvenil que transita entre suas musicas e bailes, as relações de gênero estabelecidas não são diferente do restante da sociedade, e a cisão entre razão (o homem) e sensibilidade (a mulher) também está presente.
Um bom exemplo, são as revistas semanais, destinadas a mulheres como NOVA e Marie Claire, que entre um editorial de moda e outro, sublimam em seu conteúdo que mulher boa é a submissa, a que sabe dar prazer a seu home, limpar e cozinhar, trabalhar mais que os colegas do sexo masculino, ganhar menos, ser magra e jovem, tudo isso de salto alto e sem borrar a maquiagem. Entre uma edição e outra, sempre está presente um guia de sexo lacrado com posições inovadoras, responsabilizando a mulher sobre o sucesso ou fracasso de suas relações, sejam ela profissional, afetiva, materna ou sexual.
Mesmo, que o discurso intrínseco nas letras de FUNK, seja de reprodução da opressão e dominação da mulher na sociedade, acredito que ainda há esperança, que seja possível que mesmo, a partir do discurso sexista de funkeiras como a Valeska PoPozuda, seja possível que as jovens assumam cada vez mais o controle de seus corpos.
Fica claro para mim como feminista, que a tarefa que se abre é a de construir um dialogo permanente com as novas gerações segregadas nos guetos pobres dos centros urbanos, porque mesmo que para eles, o prazer da mulher ainda seja algo visto como mero produto de uma relação pautada por interesses econômicos e de poder, o FUNK se mostra como um espaço onde a relação do individuo com o seu próprio corpo não está completamente cindida e alienada, pois, onde mais, um grupo de jovens poderão gritar a pelo pulmões: é minha, é minha a porra da buceta é minha e faço o que eu quiser, dizendo não aos homens que controlam suas vidas?





Referência

ADORNO, T. W. 1995. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra.

ADORNO, T. W. e HORKHEIMER, M. 1985. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar.

MARCUSE, H. 1964. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar.

____________. 1968. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Guanabara.

____________. 1999. Tecnologia, guerra e fascismo. São Paulo: Unesp.

_____________. 2006. Cultura e Sociedade Volumes 1 e 2. São Paulo: paz e Terra.





coletivodijeje.iluria.com








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