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NOTA SOBRE O CASO VOGUE

Brasil, Século XXI. Todos os dias vemos situações esdruxúlas de racismo; todos os dias a população negra é assassinada pelo Estado no combate as drogas e criminalidade ou encarcerada massivamente, e muitas vezes inocentemente.
Mas, o caso que quero falar hoje, é o episódio desse fim de semana, o que chamo de "Caso Vogue".
Esse caso, não difere dos outros tipos e praticas racistas tão ao gosto da elite braileira, mas ele tem um elemento extra, a legitimação.
O fato é que a senhora branca, quis organizar uma festa cujo tema fosse a Bahia, e se sentiu legitimada para utilizar elementos da cultura afrobrasileria e da religiosidade afrobrasileira, como itens de adorno para a celebração de sua vida.
Até aí, tudo bem: muitos afrobrasileiros comemoram o Natal e enfeitam suas casas e reproduzem os costumes natalinos. Ou até mesmo celebram o ano Chinês, ou cultuam elementos de tantas outras culturas. Há adfrobrasileiros budistas e até hinduistas.
No entanto, há um fator: muitos afrobrasileiros, usam elementos da cultura europeia ou asiática, por uma imposição cultural e também pela facilidade de acessar essa cultura e seus signos. Isso não ocorre com a cultura e tradicação africana e afrobrasileira.
Entre escolher uma prática cultural que retrate suas experiências imediatas, a senhora branca optou por escolher uma prática cultural e religiosa distinta de sua origem etnico racial, numa perspectiva de quem se sente legitimado para isso.

Mas, quem a legitimou? Quem foi o negro ou a negra, que deu a essa senhora o direito de usar a Bahia como uma tema de decoração, lidando com simbolos e linguagens tão caros para nossa memória de luta e resistência, enquanto africanos em diaspora?

Nós negros legitimamos essas posturas. Nos negros legitimamos essas posturas quando aceitamos falar em suas revistas, ir em seus programas, comer em suas mesas, andar em seus jatinhos. Nos negros legitimamos essas posturas, quando ao invés de usarmos nossa capacidade de fala e a contrução entre os nossos, se portamos com o tutores incansaveis do racismo da branquitude, sempre a postos para ensina-los como devem ou não se portar, o que podem ou não fazer.
Tudo é uma questão de legitimidade, e a sociedade é cheia de rituais de legitimidade.
Vestibular, título de pós graduação, posto em casa de candomblé, relacionamentos mono raciais ou inter raciais, livros publicados, dentre outros códigos e simbolos, são alguns exemplos de práticas sociais que agem como legitimadoras de falas e posturas.
E a senhora branca fez tudo direitinho: contratou mulheres negras para serem as baianas, pagou cantores baianos para celebrarem a Bahia, decorou o espaço valorizando a cultura religiosa da Bahia, ela até é casada com um baiano, estava tudo legitimo.
O problema da barbárie como modo civilizatório, é justamente esse: não importa os valores coletivos conscientes ou incoscientes inerente a minha ação, importa somente a satisfação da minha necessidade em ser ou ter algo que eu deseje. 
Para todas as outras, existem a legitimação. Alias, é para isso que a representatividade negra serve nos tempos atuais: legitimar o desejo branco de ser negro, negro de alma e de coração.
Talvez a tal senhora branca, acreditasse que estava saudando a Bahia, que todos nós amamos, a única coisa que os amigos negros dela esqueceram de ensinar a tempo, é que os negros que não se sentam com os senhores não querem colunas em revistas e festas elegantes: nós queremos tudo Dona Donata, queremos até sua alma.

Jaque Conceição
Ilha de Santa Catarina, Fevereiro de 2019.





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