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Mulheres Negras: pelo corpo, entre o corpo, no corpo

Jaqueline Conceição da Silva
Fundadora e Coordenadora do Coletivo Di Jeje
Doutoranda em Antropologia Social/UFSC






Penso sempre, que nenhuma ideia chega sozinha: as idéias são frutos das experiências que
compartilhamos ao longo de nossas jornadas. E assim, o percurso da jornada como doutoranda
da antropologia, tem me feito deslocar a compreensão do feminismo negro apenas como disputa
política na pólis, para a formulação de uma existência do corpo negro produzindo a pólis. Não se
trata de pensar disputa, mas sim produção da vida e da história.

Corpo, tem parecido ser, um ponto central para as mulheres negras, produzirem teoricamente  sobre
sua existência. Ele aparece com frequência em textos teóricos, ensaios e pesquisas. Nas mais
diferentes formas e contextos.
E é o corpo, meu corpo negro, o corpo negro que vamos pensar nesse texto. Corpo, não como unidade física da existência de uma subjetividade subalternizada e domesticada, mas como o espaço de construção e efetivação de formas de pensar e estar no mundo a partir daquilo que lhe marca sociologicamente: a falta.

Sueli Carneiro no texto “ Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América latina a partir de uma perspectiva de gênero”, nos fala que a violência sexual colonial, apontou o lugar social da mulher negra, erotizando a violência sexual contras as mulheres negras, convertendo a violência num romance com três heroínas: a mulata, a doméstica e a mãe preta. Sinalizando a falta permanente da feminilidade, da capacidade social ou da racionalidade como elemento fundante da subjetividade feminina negra.

Tem me incomodado muito, a insistência de inscrever a vida da mulher negra, apenas nesses três lugares, condenando-a a uma prisão eterna: um mesmo lugar, um mesmo tempo e o vazio.
O mesmo lugar de subalterna, o mesmo tempo de eterno sofrimento e o vazio de uma existência sem representatividade, afeto ou possibilidades.
Eu acreditei nisso, inclusive como uma possibilidade para mim, mulher negra. Mas, quando olho, leio, escuto, vejo e penso as mulheres negras, não por dentro das estruturas sociológicas, determinadas e determinantes, percebo um outro movimento. Me pergunto agora, se nesse exercício de olhar “por fora” das estruturas, estou exercendo o fazer do antropólogo: pensar o por que é como é?
Assim, percebo o movimento de um corpo que fala, que escreve, que dança, que pensa, que desenha, que pinta, que atua, que faz o mundo e está no mundo. Vejo um corpo como lugar de fala. 
Não pelo gesto de falar, desenhar, transar, pensar, mas pela gestualidade que inscreve esse corpo no mundo: quando uma mulher negra balança seu adjá (instrumento sagrado) dentro de um barracão de candomblé, para além de movimentar o corpo, ela transmite ao orixá uma ordem, um comando, uma comunicação entre o plano material e sagrado para os cultuadores dessas divindades. Essa comunicação não dita com palavras, mas sim com o gesto de balançar o adjá, conta sobre um lugar de saber e de poder, e reafirma o vínculo sagrado entre o presente passado e o presente futuro, na materialização pelo gesto no presente presente.
Corpo, primeiro espaço negado aos negros escravizados, é também o lugar primeiro onde mulheres negras produzem novas formas e ressignificam velhas formas de produzir o mundo.
Nina Simone no áudio vídeo de sua canção Aint Got No, diz sobre ausências ao cantar sua música (que também poderiam ser as minhas ausências, e talvez até as sejam), mas a forma como seu corpo performa esse contar, potencializa e inscreve em nossa memória um corpo negro,feminino, altivo, vivo e histórico: a gestualidade facial no ato de cantar, a postura de seu corpo, a forma como se movimenta nos diferentes momentos da música, as palavras escolhidas ao compor a canção, a vocalidade; inscrevem na história da humanidade uma outra “memória - corpo/escrita” para ser lido por nós que vivemos hoje.
Chamo de memória  - corpo/escrita, por que não se trata apenas de relembrar e recontar sobre uma certa cantora negra militante dos direitos civis, mas é sobre ver seu corpo - escrita, contanto com seus gestos e vocalidades, produzindo uma parte da história (Eu não tenho nada. O que então eu tenho? Eu tenho minha vida, meu sangue, eu tenho).


Nilma Lino Gomes, em seu texto regulação e emancipação do corpo negro a partir da escola, nos
fala sobre duas possibilidades para o corpo negro, a regulação que trata sobre as formas de
dominação e domínio (dominação é objetificação do corpo negro através do encarceramento; e
o domínio é a cooptação desse corpo negro pelo dominante, através da escolarização).  E a segunda
possibilidade, o corpo emancipado, onde corpos negros se distinguem e se afirmam sem cair no
lugar da exotização e folclorização. Essa tensão está colocada nas disputas que incidem sobre o
processo de colonização, que não foi superado e na construção do corpo negro como existência
material, simbólica e política. 
O que seria ou como seria essa existência politica, material e simbólica?
Lélia Gonzales no texto Racismo e Sexismo na cultura brasileira nos diz que o processo de
recuperação da memória negra, é o lugar de encontro e de afirmação. 
Como é possível retomar essa memória, se as referências epistemológicas sobre os negros, sempre
nos leva para o lugar do vazio: historicamente, as ciências humanas nos seus ditos “clássicos”, ao
menos no Brasil, incidiu sistematicamente nesse apagamento do saber-fazer-pensar dos negros,
deixando apenas a narrativa da falta como a saída possível: falta astucia, falta racionalidade, falta
capacidade, falta materialidade, falta.
O corpo é o único lugar que as mulheres negras ainda possuem como seu, da forma mais primária
possível, como bem nos lembra Nina Simone.
Como filha de santo, iniciada nos segredos dos orixás, penso sempre que essa memória sobre um
lugar de amor e liberdade, não está na "experiência africana originária", mas se materializa cada vez
que o orixá se manifesta no meu corpo, inscrevendo novamente sua história no gesto da dança, da
reza, do banho, do ngudiá (comer). Cada gesto desse, vivido no silêncio que são os gestos na maior
parte das vezes, fala com o corpo, fala com o meu corpo, sobre histórias, estórias, memórias num
texto grafado pelo corpo-escrita. Ver Xangô dançar no meu corpo é ler através da minha
gestualidade uma história de amor, de luta e de realeza. Sem que se explique, mas que se sabe,
que se lê por que se vê.
É o corpo, esse conjunto de carnes, músculos, ossos, sangue, sentimentos e pensamento, que
inscreve o lugar da mulher negra no mundo. Que conta sua memória, sua história e estória, que
marca sua temporalidade.
Corpo, gesto, narrativa, performance, racialidade, feminismo: não é aquilo que se diz, mas aquilo
que se compartilha através da experiência do corpo, como o corpo e pelo corpo.
Ruth Landes, antropóloga que conheci recentemente, em sua bela etnografia sobre “A cidade
das mulheres”, nos mostra que existiu diversas formas, que as mulheres negras de Salvador no
começo do século XX, articularam para produzir sua vida: terreiros de candomblé, tabuleiros,
narrativas, poder, disputas, memórias. 
Para terminar essa estória, quero dizer, como as coisas vão e vem e se encontram: eu, mulher
negra,feminista,  metade baiana, macumbeira, ativista, filha de Xangô com Oxum, vivendo no Sul
do Brasil, reencontro no lugar mais distante possível, a Antropologia, a mim mesma, ao meu corpo,
e as diversas formas de ser e estar no mundo, deslocando da falta que a racialidade negra impõe
ao meu corpo, a presença que essa mesma racialidade negra me potencializa. Na dança, na música,
no samba, no batuque, na universidade, na literatura, no trabalho doméstico ou fabril, dentro das
prisões ou dos alagados, como uma pérola negra, as mulheres negras, da Cidade das Mulheres e
de todas as cidades do mundo, com seus corpos, estão fazendo aquilo que fazem por excelência:
movendo seus corpos e movendo o mundo.





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