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Viva Zumbi ou a quase todos quase pretos

Por Jaqueline Conceição da Silva
Fundadora e Coordenadora do Coletivo Di Jeje
Doutoranda em Antropologia Social/UFSC



Como diria Caetano Veloso: são quase todos pretos, ou quase brancos, ou quase pretos de tão pobres. Começo esse texto com esse trecho de Haiti, por que no dia de hoje, me lembrei de um trecho do Documentário Ori da Beatriz Nascimento, uma importante historiadora sobre os afro brasileiros, onde ela discute sobre a "ideia" de que os quilombos foram a "experiência africana inaugural" dos negros no Brasil.
Onde começa a experiência dos sujeitos acerca de suas tradições, memórias, costumes, saberes e fazeres? Como, pensar numa possibilidade de experiência marcada pelo fazer-saber do corpo, quando temos o atravessamento de quase 400 anos de escravidão, onde justamente o corpo negro era insistentemente marcado e domesticado?
Se por um lado, Walter Benjamin nos presenteia com a máxima de que a experiência só se dá no corpo, pelo corpo e através do corpo, Angela Davis nos lembra que há uma epistemologia sobre a ontogênese dos indivíduos negros, que nega a estes, a possibilidade de uma experiência completa pelo corpo, através do corpo e no corpo, justamente por que o corpo negro foi aniquilado efetivamente, através do castigo físico e sexual durante a escravidão, e também ontologicamente na modernidade, através da consagração do ideal branco de individuo. 
O que quero dizer com isso? Deixe-me usar um exemplo: hoje, dia 20 de Novembro é o dia Nacional da Consciência Negra. Consciência aqui entendida como espaço primeiro de efetivação da experiência do corpo: penso logo existo, tenho consciência, logo existo (como diz René Descartes). Porém, como na vida cotidiana o corpo negro não é passível do desejo (por que é um corpo que não tem nenhuma pulsação, nenhuma vitalidade fora do seu lugar de subalternidade e domesticação - isso, segundo os brancos), esse corpo é insistentemente apartado da vida social e pública, então, voltando ao exemplo: hoje, num dado momento do dia, assisti a um programa de entretenimento com auditório, exibido pela Tv Globo. Ali, no dia de hoje, havia uma enorme presença negra, de participantes, passando pelos apresentadores e encerrando com a cantora. 
O que isso sinaliza para nós? Ontem e amanhã, esses corpos negros voltaram a ocupar os mesmos lugares e marcadores: o enquandro do corpo marcado pela violência e pela impossibilidade do luto (o luto aqui, é colocado como aquilo que marca o fim da vida, e portando o fim da experiência daquele ou daqueles sujeitos que agora, são socialmente desejados como antepassados, guardiães de memórias e valores que guiam os vivos). 
Nesse mesmo lugar de destaque, se dá a idéia de um Zumbi de Palmares, grande heroí salvador e aquele que carrega em si o mito de uma experiência negra inaugural  onde as narrativas sobre a racialidade no Brasil indicam que Zumbi foi aquele que nos libertou do julgo da escravidão, foi o grande herói e somente depois do fim da escravidão é que passamos a existir e produzir formas de vida com nossos corpos, como se antes disso tudo que fizemos tivesse sido apenas a servidão da escravidão, ou seja, tensiona uma narrativa de que existe apenas uma única possibilidade de uma consciência racial, e que diz respeito apenas as pessoas negras, que sempre é externa, por que está sempre baseada em heróis e heroínas, a #MarielleVive, não me deixa mentir. 
É como se o indivíduo negro fosse unicamente marcado por uma relação cindida entre si e sua consciência, onde o marcador do surgimento dessa tal consciência fosse a data histórica do dia 20 de Novembro, que se consolida na figura de Zumbi dos Palmares, retificando a ideia de que corpos negros não são capazes de produzir experiências com seus corpos, sem que haja um validador externo de nossa existência. 
O que quero dizer, para encerrar essa nossa conversa, é que não existe um mito fundante que marque historicamente a nossa produção de experiência racial africana no Brasil, no entanto, existe uma narrativa estrutural, atravessada pela forma como a branquitude se organiza, que cinde nosso corpo negro de nossa consciência negra, projetando mitos, heróis e heroínas, colocando o devir de uma vida plena para todos os pretos desta pátria, sempre num futuro, que nunca se consolida, que nunca se efetiva, por que precisa desses mitos, heróis e heroínas que não por acaso, sempre são figuras mortas, e portanto passiveis de serem moldadas ao desejo dos jogos de poder. 
Por fim, como assevera Beatriz Nascimento, é que o que está em jogo na forma como a narrativa histórica é passada, é sempre uma tentativa de separar a experiência de vida do povo negro, de sua capacidade de se constituir como sujeito: ao criar a ideia de uma experiência inaugural através do Quilombo dos Palmares, a historiografia sinaliza e cristaliza uma unica forma de ser, estar e pensar enquanto negro.
Talvez daí, venha a ideia de que a experiência racial negra é mais legitima para determinados tipos de indivíduos negros e menos para outros não tao pretos. No entanto, todo corpo, lido e legitimado pelas narrativas e estruturais sociais como negro, é colocado nesse lugar de incompleto e inacabado.
Que nossa consciência negra se apodere de nosso corpo negro (seja ele de qual tom for) e seja a presença negra o arco da promessa de outra vida, outros tempos e muitos afetos.

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