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O pensamento de Angela Davis: apontamentos iniciais


 Jaqueline Conceição da Silva[2]
Fundadora e Coordenadora do Coletivo Di Jeje
*texto originalmente publicado https://goo.gl/R7uJX1

Angela Yvonne Davis nasceu em 1944, no Alabama, Sul dos Estados Unidos da América. Durante sua infância, vivenciou situações de violência e conflito devido à segregação racial entre negros e brancos. Filha do meio de uma família negra, Davis viu diversas vezes seu pai, funcionário público, utilizar armas para proteger a si e à sua família de agressores ligados a grupos racistas radicais do estado.
Em 1964 Davis se inscreveu em um programa de formação universitária para jovens negros do Sul, organizado pela Universidade Brandeis, em Nova Iorque, no Norte do país, o que possibilitou que ela migrasse, afastando-se das tensões raciais que aconteciam em sua região de origem.
Em seguida, Davis passou um período estudando na França, e depois se dirigiu para Alemanha, a fim de dar continuidade à sua formação, retornando para os Estados Unidos como assistente de Herbert Marcuse. Em 1969 foi convidada a assumir a cadeira de Professora Titular da Universidade da Califórnia, no campus de Santa Cruz. Assumindo publicamente que era membro do Partido Comunista, foi demitida.
Davis, além de professora e membro do Partido Comunista, também era, então, militante de um coletivo negro denominado Che Lumumba, e foi a partir dele, ligado ao próprio Partido, que se engajou na luta pela libertação de prisioneiros políticos negros. Um deles era George Jackson. Jackson era conhecido por sua habilidade em organizar e articular os detentos, sendo considerado pelo governo estadunidense como absolutamente perigoso. Davis coordenava um comitê de libertação de Jackson e outros dois prisioneiros políticos, conhecidos como Irmãos Soledad, ao lado do caçula de Jackson. No entanto, o destino reservaria uma longa história de luta pela libertação para Davis: a batalha pela sua própria libertação.
No verão de 1970, o irmão de Jackson organizou e executou uma tentativa de sequestra-lo, que culminou na morte de um juiz, um promotor, duas testemunhas e alguns membros do júri. As armas usadas no sequestro estavam em nome de Angela Davis e, para o FBI, seria ela a mentora e responsável por toda a ação. A partir de então, o FBI a colocou como inimiga número 1 dos Estados Unidos da América. Durante 18 meses Davis foi caçada de norte a sul, leste a oeste do país, sendo presa em Nova Iorque. Depois de quase dois anos de processo, Davis foi inocentada de todas as acusações. Foi nesse período, a partir da campanha organizada durante seu julgamento pelo Partido Comunista em todo o mundo, que Angela Davis passa a ser conhecida no Brasil.
Nesse trabalho, diremos algo sobre as cinco décadas de produção acadêmica da Professora Doutora Angela Davis. É importante apresentar Davis como Professora por dois motivos: primeiro porque, de fato, ela é Professora Doutora aposentada na UCLA e, segundo, porque em um país racista como o Brasil (que possuiu um passado escravocrata e que mantém na atualidade os resquícios dessas relações servis entre brancos e negros, com decorrências específicas para a mulher negra), dar a vê-la como intelectual é, sobretudo apontar outra perspectiva de atuação social histórica para as mulheres negras em nosso país. Desconsiderar a importância dos seus títulos, sendo ela uma mulher negra, e fixando-a apenas como militante (o que não significa desconsiderar sua militância), é uma forma de diminuir sua importância teórica para o enfrentamento ao racismo nos dias atuais. Contudo, cabe aqui um apontamento: muitos acadêmicos e intelectuais brancos no Brasil desconsideram a importância de se pensar sobre o racismo a partir da experiência do povo negro, e é justamente esta a contribuição de Davis no debate brasileiro, já que ela parte da experiência dos negros para a compreensão e enfrentamento do racismo na sociedade moderna.
Após o episódio de sua fuga, prisão e julgamento, Davis passa a percorrer o mundo a convite do Partido Comunista, lecionando em diversas universidades. Ela publicou relativamente pouco nesse período, mas, certamente, seus questionamentos puderam contribuir muito para a organização e produção de um dos primeiros materiais que ela trouxe a público ao retornar para casa, o livro Mulheres, raça e classe (1981).
Para que seja possível compreender a importância metodológica, teórica e histórica do supracitado livro, é preciso retomar a base do pensamento de Davis, mostrando com quem ela dialoga permanentemente ao cunhar seus conceitos e categorias de análise. Como teórica crítica, a preocupação de Davis também é a compreensão da barbárie: ela acrescenta o racismo não como um elemento isolado, mas como parte da barbárie, pois entende que a acentuação da divisão social e econômica, apoiada no racismo e no machismo, incidem cada vez mais na cisão entre civilização e cultura, tal como Marcuse aponta no ensaio Sobre o caráter afirmativo da cultura (1937). Davis compreende que o racismo está em todas as formas de relação, produção e reprodução da sociedade. Não é possível isolá-lo de outros elementos, mas necessário compreendê-lo em sua complexidade e totalidade. Para tal compreensão e superação do problema, é preciso identificar de que maneira o racismo age no processo de formação dos indivíduos na modernidade. Davis não se refere a qualquer sociedade, ela é muito específica quando diz que fala sobre a sociedade moderna, de base industrial, capitalista e ocidental, e afirma que o ponto de partida para a compreensão do racismo nesse contexto é a escravidão e seu impacto nessa realidade e na realização dos homens e mulheres: a liberdade.
Para Davis, a liberdade para o indivíduo negro não acontece de maneira individual, idealizada, ela só é possível de modo concreto (como uma resposta à escravidão): o negro só pode ser livre se exercer a liberdade de maneira coletiva, por meio dos processos identitários que é possível que o negro reflita sobre seu aprisionamento e elabore estratégias de superação da condição de cativo. Essa análise, feita pela autora fica evidente na parte dois do texto Lectures on Libertation (1972), quando, ao refletir a autobiografia de Frederick Douglas, ex-escravo norte-americano, a autora aponta os processos de análise da realidade empreendidos por ele, até compreender o que de fato era a escravidão e quais as possibilidades de romper com sua condição de não-humano. Para Davis, a liberdade não é algo meramente idealizado, mas um processo a ser construído; então, para o negro ser livre é preciso rejeitar o que o torna escravo: os hábitos e costumes do senhor. Não apenas pela substituição de uma ética pela outra, ou seja, pela substituição da dinâmica de mundo do branco, burguês, ocidental, pela ética da África[3] construída e idealizada pelo pensamento ocidental. Para ela, a liberdade tem como pré-requisito a análise e compreensão do mundo no qual estamos inseridos, e do ponto de partida dos negros nesse mundo: a escravidão. Davis relembra que a vinda dos negros para a América ocorreu por meio do processo de escravidão; isso ocasionou o apagamento de todo um passado vivido no continente africano. Na América, os negros foram misturados entre si, tiveram seus costumes negados, suas vivências tribais proibidas, e precisaram se reencontrar na vida em cativeiro. Por isso, para ela, o ponto de partida para se pensar o negro no Ocidente deve ser a escravidão e todos os impactos que esta causou no processo de formação desses indivíduos, e dos indivíduos brancos.
A escravidão não é apenas um sistema de domínio racial entre indivíduos: a escravidão negra é parte fundamental de um sólido sistema econômico, importante para o capitalismo, e que a partir de mecanismos ideológicos atua fortemente na formação dos indivíduos negros, e também na dos indivíduos brancos, pois a escravidão é uma cadeia que aprisiona escravos e senhores. Ao concluir essa análise, Davis nos aponta um caminho para a luta: o fim do sistema capitalista. Segundo a autora, para que existam escravos é preciso que existam senhores, e essa dicotomia, típica da modernidade, tão bem expressa nos mecanismos de controle, produção e reprodução do capitalismo, não só fomenta a exploração, como legitima sua existência, seja por meio da separação entre trabalhadores e patrões, ou da separação entre senhores e escravos; portanto para a autora, a saída legitima é a abolição da organização dual da vida no modo de produção capitalista e, finalmente, o fim do próprio capitalismo.
Com isso, Davis nos propõe pensar que é necessário que a partir de suas experiências históricas, ancestrais, religiosas, coletivas e culturais, os negros busquem compreender a realidade que os cerca, num processo permanentemente dialético, pois a existência da raça negra é uma criação da modernidade e resultado da contradição típica em que a sociedade capitalista e industrial está inserida: destruir para construir, dominar para progredir, violentar para viver.
Nessa perspectiva, para Davis, pautar o feminismo negro é mais do que realizar uma transposição teórica do feminismo clássico: para ela, o feminismo negro é um método de analise teórica da realidade em que as mulheres negras estão inseridas num contexto amplo, uma vez que na comunidade negra não existem lutas isoladas e fragmentadas, as lutas são interseccionais. Pautar o processo de libertação da mulher negra é pautar a libertação de toda a comunidade negra, pois homens e mulheres, crianças e adultos, jovens e velhos, heterossexuais e homossexuais, coexistem nessa comunidade, estão amarrados por uma experiência histórica em comum, que moldou toda sua forma de ser e existir: a escravidão.
Há uma dupla unidimensionalidade na qual os indivíduos negros estão inseridos: para além da reprodução do etos da burguesia, os negros também reproduzem o etos dos brancos, o que aponta, no entendimento de Davis, para a necessidade do refinamento da análise da realidade dos indivíduos negros, buscando estratégias assertivas e baseadas na experiência coletiva e ancestral deste grupo, para então se alcançar saídas e respostas para o enfrentamento da barbárie e, por consequência, do racismo.


[1] Texto originalmente apresentado no debate de lançamento do Livro Mulher, raça e classe, primeira edição brasileira, da editora Bontempo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em Setembro de 2016.
[2] Pedagoga, Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Coordenadora de Formação Política do Coletivo Di Jejê.
[3] Para Angela Davis, é preciso um aprofundamento na compreensão do legado do continente africano, na formação do ocidente. Seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista cultural. Para a autora, se faz necessário um mergulho nas referências ancestrais dos indivíduos trazidos pela escravidão para as Américas e Europa. Sobretudo, é preciso pensar de qual África ou Áfricas estamos falando, e a partir de qual perspectiva. Nessa mesma linha, Beatriz Nascimento, no livro Eu Sou Atlântica (2007), aponta que no caso do Brasil, os quilombos e terreiros de candomblé, possibilitam esse resgate da ancestralidade africana. Ambas autoras, apontam que o processo de formação para a emancipação, está na possibilidade da experiência ancestral, vivenciada pelo individuo negro, como uma estratégia para definição de sua identidade, e portanto de sua história. A valorização do cabelo Black Power é um do processo de resgate da identidade, a partir da experiência trazida pelos ancestrais.

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