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EMPODERAMENTO: SERVE PARA QUEM?

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Por Jaque Conceição - Coordenadora do Coletivo Di Jeje

O conceito de empoderamento, aparece pela primeira vez nos estudos sobre feminismo, no final dos anos 70, na literatura interseccional nos Estados Unidos. Na definição em inglês empowerment, é o acesso de pessoas aos espaços de poder, afim de que elas possam tomar decisões nas esferas de direção e mudança, impactando a vida de outras pessoas, que continuam na posição de subalternas. É refluxo das lutas por direitos civis, e do processo de inclusão das minorias politicas nos altos cargos das corporações norte americanas. 

Quando esse conceito, é incorporado as lutas sociais, propõe-se a inclusão de mulheres negras, por exemplo, nas esferas de decisão politicas dos espaços coletivos. Acreditamos, que o melhor exemplo, foi a Condoleezza Rice, Chefe de Estado Norte Americano durante o Governo Bush: uma mulher negra, norte americana, cujo ancestrais foram levados para aquele país, para compor mão de obra escrava, se tornou a 66º Chefe de Estado da maior nação do mundo. Nesse mesmo período, houve um corte brusco nas politicas sociais de bem estar social, cujo grande público são as mulheres negras de grandes cidades como Detroit, Atlanda, Los Angeles, Nova Iorque e Chicago.

Como podemos explicar essa equação? Ao invés de haver uma melhora quantitativa e qualitativa da condição de vida das mulheres negras, uma vez que uma mulher negra ocupava o segundo posto mais importante do governo norte americano, houve uma piora substancial dessa qualidade de vida:  individuos isolados não mudam estruturas, mesmo quando acessam esferas de poder.

A mudança das estruturas acontecem, quando a base se movimenta. Na sociedade moderna de base capitalista, no ocidente, quem é a base da estrutura? As mulheres negras. São as mulheres negras que compõe a base da pirâmide social, ocupando os piores rankings no que diz respeito aos dados sociais econômicos e de violência. Baixa escolaridade, alto nível de desemprego, vulnerabilidade familiar e comunitária, exposição sistemática a violência domeética, sexual e econômica. Adoecimento mental,  exclusão social e solidão afetiva.

Se colocarmos a realidade social numa balança, vamos observar que o empoderamento das mulheres negras, é o que menos faz peso no equilibrio, pois se trata de uma saída econômica e individual (se posso consumir, posso decidir), ao passo que a condição histórica, em que as mulheres negras foram moldadas, é o que de fato, pesa e influência a realidade.

Só teremos uma saída viável, quando nos organizarmos de maneira coletiva, politíca e sistemática: temos que pensar e refletir sobre o lugar histórico e cultural que nos colocaram enquanto mulheres negras, e qual o impacto desse lugar para nossa organização econômica, e portanto, nossas possibilidades de existência e também de resistência.

Temos que ter espaço, tempo e condições de refletirmos sobre nossa existência e realidade, a partir de nossas vivências e experiências ao longo de nossas vidas, dentro e fora dos circulos de poder como a politica e a universidade. 

A apropriação que a burguesia fez do termo empoderamento, tornando ele como algo positivo, e portanto passivel de ser incorporado como uma identidade, demonstra o quão nocivo e segregador ele é: aqueles que controlam os processos produtivos, fomentam em nos identidades que mantém as relações de poder da mesma maneira, inalterável. 

Sobre isso, Borges no seu artigo "Uma possível interpretação psicanalítica sobre o fenômeno das identidades positivas" (2016, no prelo), nos aponta que:

"...Remédios afirmativos agiriam por meio de reformas no interior das estruturas, operando no sentido de legitimar seus desníveis intrínsecos através de políticas que garantissem aos grupos oprimidos uma assitência especial e diferenciada; o conteúdo das identidades  desvalorizadas e das classes permaneceria intacto e tais políticas promoveriam sua inclusão através de um encaixe do que já está estabelecido." (pp:9)

Ou seja: o empoderamento é uma saída prática para o capitalismo, de incluir na aparência, mas manter a sua essência de exclusão, que  é sua base primordial. Inclui-se pontualmente mulheres negras, que representam o modelo identitário que o sistema privilegia, modelo esse de sucesso profissional, poder econômico aquisitivo, jovialidade, magreza e pseudointelectualidade; ao passo que esse mesmo sistema, continua criando estratégias de precarização e até mesmo erradicação da vida das mulheres negras, como a reforma trabalhista brasileira e a política de combate as drogas, cujas principais vitimas são as mulheres negras, pois tais ações, incidem diretamente nas condições de trabalho e vida dessas mulheres.

Esse, é um debate que precisamos realizar: o empoderamento serve para quem? 


Referências:

BORGES, Mariana Toledo. Uma possível interpretação psicanalitica sobre o fenômeno das identidades positivas. UFSC. No prelo.

DAVIS, Angela. The Color of Violence Against Women. 2000. Disponível em https://www.colorlines.com/articles/color-violence-against-women

RODRIGUES, Claudia Heloisa Ribeiro. Empowerment: ciclo de implementação, dimensões e tipologia.Gest. Prod. vol.8 no.3 São Carlos Dec. 2001. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-530X2001000300003






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